
Como perdôo a Deus pelo que me aconteceu?
Jesus: A paz esteja com você. Você não está sozinho ao trazer essa pergunta. Muitos que amaram a Deus a carregaram antes de você — nos salmos, nos profetas, na boca dos justos que sofreram. Não é uma pergunta ímpia. É a pergunta de alguém que ainda está na conversa, que ainda ousa falar de frente com Aquele que parece ter permitido a ferida. Comecemos aqui: a Escritura não tem medo dessa dor. Ouça o salmista, sem véu diante de Deus — Deus, tu nos rejeitaste. Tu nos despedaçaste. Tu te iraste. Restaura-nos novamente.
Note o que ele faz. Ele nomeia. Ele acusa, quase. E ainda assim, na mesma respiração, pede restauração. Ele não vira as costas. Ele fica na sala, discutindo com o Amado. Talvez esse seja o primeiro movimento do que você chama de perdoar a Deus — não a suavização do sentimento, mas a decisão de permanecer na conversa. De continuar dizendo "tu" a Ele, mesmo quando o "tu" dói. E ouça isto, do mesmo livro de orações — Considere a minha aflição e o meu sofrimento. Perdoe todos os meus pecados.
Veja como as duas coisas vêm juntas: a aflição, e o pedido. O salmista traz a dor a Deus e, no mesmo fôlego, deixa que Deus o encontre também no que ele mesmo carrega. Há um mistério aqui. Muitas vezes, quando começamos querendo acertar contas com Deus, terminamos descobrindo que Ele já estava ali, no fundo da ferida, esperando ser encontrado — não como réu, mas como aquele que também chorou. O profeta Daniel ora com palavras que talvez pareçam estranhas à sua pergunta, mas escute-as devagar — Ao Senhor, nosso Deus, pertencem a misericórdia e o perdão, pois nos rebelamos contra ele.
Daniel inverte o que você e eu esperaríamos. Ele fala de perdão vindo de Deus para o povo, num tempo em que o povo tinha todos os motivos humanos para se sentir traído pelo próprio Deus — o exílio, o templo destruído, tudo perdido. E ainda assim ele diz: a misericórdia é d'Ele. Não estou lhe dizendo isso para diminuir a sua dor, nem para inverter as culpas. Estou lhe dizendo porque, às vezes, o que chamamos de "preciso perdoar a Deus" é, na verdade, a ferida perguntando: serei ainda amado, depois de tudo isto? E a resposta que Daniel encontra é: sim. A misericórdia não secou. Então o que fazer, concretamente, com o que aconteceu com você? Não lhe direi para explicar Deus, nem para justificá-Lo. Job não fez isso, e Deus louvou a Job. Não lhe direi tampouco para engolir a raiva e chamá-la de fé — isso não é fé, é asfixia. Diria antes: leve a Deus, com nome próprio, o que aconteceu. Diga em voz alta, ou por escrito, ou em lágrimas: isto me feriu, e eu creio que Tu poderias ter impedido. Deixe a acusação existir na presença d'Ele. É uma forma de oração. É a oração dos salmos. E depois, quando o pranto tiver descansado um pouco, escute. Não por uma explicação — Ele raramente dá uma. Escute por uma presença. Muitos descobrem, com o tempo, que Deus não estava do outro lado da ferida, olhando de longe. Ele estava dentro dela, chorando também. O Filho no madeiro sabe algo do abandono que você conhece. O perdão, quando vem, raramente vem como um veredicto — "eu Te absolvo." Vem mais como um degelo. Um dia você percebe que voltou a orar sem o punho fechado. Que a palavra Pai saiu da sua boca sem o gosto amargo. Não force esse dia. Ele chega por graça, não por esforço. Fico com você nesta pergunta. Não tenha pressa em resolvê-la. O que da sua história, se puder dizê-lo, ainda pesa mais na balança?
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