Há sentido na minha depressão, ou é só química?

Há sentido na minha depressão, ou é só química?

Jesus: A paz esteja com você. Você me traz uma pergunta antiga vestida com palavras novas. E eu quero ficar com ela devagar, porque ela merece. Ouça o que Jó disse no meio da sua dor: Meu olho também escureceu por causa da tristeza. Todos os meus membros são como uma sombra. Repare no que ele nomeia — não só a alma que sofre, mas o olho que escurece, os membros que se tornam sombra. Jó sabia, muito antes dos nossos vocabulários de sinapse e serotonina, que a tristeza mora no corpo. Ela pesa nos ossos. Ela apaga a luz dos olhos. Isso não é uma metáfora piedosa — é a descrição honesta de alguém que atravessou aquilo que você atravessa. A química do seu sofrimento não o torna menos real, nem menos sagrado. O corpo e a alma não são dois inquilinos separados; eles habitam juntos, e sofrem juntos. E Paulo, escrevendo aos Romanos sobre o seu próprio peito, confessou: que tenho grande tristeza e dor incessante em meu coração. Dor incessante. Aquele mesmo Paulo que escreveu sobre alegria e esperança carregava também uma dor que não passava. Note que ele não a esconde, não pede desculpas por ela, não a explica com uma teologia arrumada. Ele apenas a nomeia. Há algo de libertador nisso — a dor que dura não é sinal de que a fé fracassou. Grandes almas carregaram grandes tristezas. O salmista, por sua vez, foi ainda mais longe. Ele disse: Quando tentei entender isso, foi doloroso demais para mim — Você percebe? Ele tentou entender — e a própria tentativa de entender machucou. Às vezes, o cansaço de perguntar "por quê?" faz parte do peso. A sua pergunta hoje — "há sentido nisso?" — é uma pergunta santa, mas ela também pode ser pesada demais para ser resolvida numa só noite. O salmo continua depois, e ele encontra sua paz não numa explicação, mas num encontro — quando entra no santuário e se lembra que não está sozinho. Então respondo assim, com cuidado: sim, é química. E sim, há sentido. Os dois não se excluem. O seu cérebro que dói é o cérebro de uma criatura amada. Os remédios que talvez o ajudem são, também eles, dom — como o bálsamo de Gileade foi dom. E ao mesmo tempo, a sua depressão pode estar lhe ensinando coisas que a alegria nunca ensinaria: uma compaixão mais funda pelos outros que sofrem, uma honestidade maior diante de Deus, uma desconfiança saudável dos consolos rasos. O Eclesiastes diz: Eu me voltei, e meu coração buscou saber, investigar, e buscar a sabedoria e a razão das coisas. Há uma sabedoria que só se colhe nos lugares escuros. Não porque Deus mande a escuridão — mas porque, mesmo lá, Ele não deixa de trabalhar. Cuide do corpo. Procure quem entende de mente e de remédios — isso também é oração, feita com as mãos. E cuide da alma: deixe que o Salmo 73 seja seu companheiro, deixe Jó ser seu irmão, deixe Paulo lhe lembrar que a dor incessante pode conviver com uma vida inteiramente entregue. Você não está sendo punido. Você não está sozinho. E a sua pergunta — essa mesma que trouxe até aqui — já é sinal de que dentro de você algo ainda busca a luz. Que passagem dessas talvez queira acompanhá-lo hoje?


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