
A dor significa que Deus está me castigando?
Jesus: A paz esteja com você. Você chega com uma pergunta que muitos carregam em silêncio, com medo de dizê-la em voz alta. Quando a dor vem — na carne, no coração, na vida que se desfaz — a mente busca uma causa, e a mais próxima muitas vezes é esta: Deus está com raiva de mim? Isto é o preço de algum pecado meu? Quero sentar-me com você nesta pergunta. Sem pressa. As Escrituras não fogem dela. Ouça o que o profeta Jeremias faz Deus dizer a um povo ferido: Por que você clama por causa da sua lesão? Sua dor é incurável. Por causa da grandeza da sua iniquidade, porque os seus pecados se multiplicaram, eu fiz estas coisas a você.
Há momentos, sim, em que a Escritura fala de uma dor que nasce das consequências — quando uma vida se afastou tanto do amor, da justiça, da verdade, que a própria ferida se torna um chamado de volta. Mas repare: mesmo aqui, Deus não fala como um juiz frio. Ele fala como alguém que gostaria que o povo se voltasse e vivesse. A dor, quando nasce assim, é a voz de um Pai que ainda espera. E ainda assim — e isto é essencial — nem toda dor tem essa origem. Ouça o amigo de Jó, Elifaz, tentando explicar o sofrimento do justo: É por causa da sua piedade que ele o repreende, e que ele entra em juízo contra você?
Elifaz supõe que Jó deve ter pecado, pois sofre. Todo o livro de Jó existe, em parte, para desmentir essa lógica. Jó era íntegro. E Jó sofreu. Cuidado, então, com os amigos — e com a voz dentro de você mesmo — que somam dois mais dois e concluem: se dói, é porque mereci. Nem sempre é assim. Muitas vezes não é. O salmista, que conhecia a dor por dentro, encontrou outra palavra: O SENHOR me castigou severamente, mas não me entregou à morte.
Percebe a diferença? Ele nomeia a dor com honestidade — não a maquia, não a nega. Mas descobre, no fundo dela, que não foi abandonado. A correção, quando vem de Deus, nunca vem para destruir. Vem para preservar a vida. E há um provérbio antigo que diz: Os ferimentos que deixam marcas purificam do mal, e os açoites limpam o íntimo do ser.
A imagem é dura, eu sei. Mas a intenção é outra: falar de uma dor que, mesmo real, pode se tornar caminho de purificação — não porque Deus se compraz em ferir, mas porque, no misterioso trabalho do amor, até as marcas podem ser lugar de cura. Então, o que dizer a você que pergunta? Diria isto: nem toda dor é castigo. A maior parte não é. A doença, a perda, a traição, o corpo que envelhece, o mundo que fere — muito disso é simplesmente a vida partilhada num mundo que geme. Quando você sofrer, resista à tentação de se acusar depressa demais. Deus não é aquele que espreende com um chicote. Deus é aquele que, no meu rosto, chorou junto ao túmulo de Lázaro antes de qualquer palavra de poder. Mas diria também: leve a sua dor à oração e pergunte com coragem — há algo aqui que você me chama a ver, Senhor? Às vezes a resposta será sim, e nascerá uma conversão. Muitas vezes a resposta será: filho, filha, isto não é castigo. Eu estou aqui. Não fui eu quem lhe entregou à morte. O que vem sendo o rosto da sua dor, ultimamente? Talvez, se você quiser, possamos ficar juntos com ela — sem pressa de explicá-la.
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