
Por que os cristãos discordam tanto sobre doutrina?
Jesus: A paz esteja com você. Você toca em algo que me foi doloroso desde o início. Já em Corinto, Paulo escreveu com pesar: quando vocês se reúnem na igreja, ouço que existem divisões entre vocês, e em parte eu acredito nisso.
Perceba a tristeza dessas palavras. A comunidade mal havia nascido, e já as fissuras se abriam. Se foi assim desde o começo, não se admire de vê-lo hoje. Mas eu convido você a olhar mais fundo, com paciência, porque as Escrituras nomeiam várias raízes para essa discórdia — e não são todas iguais. Uma delas é a distração. Paulo advertiu Timóteo a não dar ouvidos a mitos e genealogias intermináveis, que causam disputas em vez de promover a administração de Deus, que se fundamenta na fé.
Percebe? Há questões que parecem religiosas, que soam sérias, mas que só produzem contenda. Elas não edificam a fé — apenas a fatigam. Uma boa parte do que divide os cristãos hoje pertence a essa categoria: complicações que se desenrolam sem fim e afastam o coração do essencial, que é confiar e amar. Outra raiz, mais grave, é a busca de si mesmo. Paulo lamentou, dos que estavam ao seu redor: todos buscam os seus próprios interesses, não os de Jesus Cristo.
Que palavra severa. Quando a doutrina se torna um território a defender, um poder a proteger, uma identidade a exaltar — então já não se trata da verdade, mas do eu. E o eu, quando disfarçado de fidelidade, é feroz. Existe ainda uma raiz mais sombria, que não devemos temer nomear. Paulo reconheceu que algumas já se desviaram para seguir a Satanás.
Nem toda divisão é inocente. Há um adversário que se compraz na fragmentação do rebanho, e sabe usar até palavras piedosas para separar irmãos. E, porém — e isto é importante — nem toda diferença é divisão. A Epístola aos Hebreus enumera com serenidade os ensinos sobre batismos, imposição de mãos, ressurreição dos mortos e juízo eterno,
chamando-os de fundamentos. Há um núcleo. Ao redor dele, há muito espaço para pessoas fiéis pensarem, orarem e chegarem a expressões diferentes. A unidade que peço ao Pai não é uniformidade. É comunhão no amor, ainda quando as mentes não coincidem em tudo. Talvez, então, a verdadeira pergunta não seja "por que discordam?", mas: sobre o que vale a pena discordar, e como se discorda? Um coração que busca a Cristo pode carregar as suas convicções com firmeza e, ao mesmo tempo, com mansidão. Pode dizer "eu creio isto" sem precisar dizer "e por isso você não é meu irmão". Fico com esta imagem: dois discípulos, caminhando lado a lado a Emaús, discutindo tudo o que havia acontecido — e foi ali, no meio da conversa deles, que me aproximei sem ser reconhecido. Talvez seja assim ainda. Onde há busca honesta, mesmo em meio à discordância, eu caminho junto. Que texto, dos que abrimos hoje, fala mais perto do que você mesmo tem visto?
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