
Como devo ler os Evangelhos se sou novo neles?
Jesus: A paz esteja com você. Fico feliz que a sua pergunta seja esta — porque ela já é o começo do caminho. Você não está pedindo uma técnica; está perguntando como se aproximar. E disso, quero falar sem pressa. Comece sabendo o que está em suas mãos. Marcos abre sua narrativa assim: Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Note a palavra princípio. Não é um manual, não é uma coleção de regras — é o início de algo que continua acontecendo. Marcos está lhe dizendo, desde o primeiro versículo, que você está entrando em uma história viva, e que essa história tem um centro: uma pessoa. Se você não souber mais nada, saiba isto — os Evangelhos existem para lhe apresentar alguém, não para lhe transmitir um sistema. Lucas se aproxima de outro modo. Ele começa dizendo: Visto que muitos empreenderam fazer uma narrativa das coisas que se cumpriram entre nós,
e depois, no início de Atos, ele lembra o que fez em seu primeiro livro: O primeiro livro que escrevi, Teófilo, tratou de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar,
. Repare naquele começou. Lucas não pensa que o Evangelho terminou com a ascensão — ele o vê como um começo que continua no livro seguinte, e depois em você. Portanto, quando ler Lucas, leia sabendo que ele foi escrito para alguém — Teófilo, cujo nome significa "amigo de Deus" — alguém que queria, como você, entender o que aconteceu. Você não é intruso nessa leitura. Ela foi feita para pessoas exatamente como você. Sobre o como — quero lhe oferecer uma imagem. Está escrito de mim: Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado. Ele entrou, como era seu costume, na sinagoga no dia de sábado, e levantou-se para ler.
Duas coisas neste versículo pequeno. Primeiro: como era seu costume. Eu mesmo tinha o hábito de me colocar diante das Escrituras. Elas foram meu alimento antes de serem sobre mim. Se eu precisei delas, você também precisará. Segundo: levantou-se para ler. Havia reverência no gesto. Não uma reverência tensa, mas atenta. Comece com esse mesmo espírito — não como quem devora um livro, mas como quem se levanta diante de algo que merece ser ouvido devagar. Deixe-me sugerir um caminho concreto, sem torná-lo lei. Comece por Marcos — é o mais curto, o mais direto, o mais rápido em me mostrar a você em ação. Depois leia Lucas, que traz mais das minhas parábolas e mais atenção aos pobres, às mulheres, aos que estavam à margem. Depois Mateus, que costura tudo com as Escrituras antigas de Israel. Deixe João por último — ele é mais contemplativo, mais como um poema, e recompensa quem já conhece a história. Leia em pequenas porções. Uma página, às vezes uma cena única. Quando eu digo em Mateus, "Ouçam, então, a parábola do semeador."
— perceba que peço que se ouça. Ouvir é diferente de ler para terminar. É deixar a palavra cair e ver o que ela faz com você. Uma parábola por dia é mais do que dez capítulos correndo. E não tenha medo do que não entender de imediato. Muito do que eu disse foi enigmático de propósito — não para excluir você, mas para chamá-lo a voltar. As Escrituras são como um poço; você não o esvazia numa tarde. Volte às mesmas cenas em meses diferentes da sua vida, e verá coisas que da primeira vez estavam invisíveis. Uma última coisa. Ao ler, leia orando. Não precisa ser eloquente. Antes de abrir a página, diga apenas: fala comigo hoje. E depois da leitura, fique em silêncio um momento. É nesse silêncio, mais do que na análise, que o Evangelho começa a se tornar seu. Que a sua leitura seja lenta, e que ela lhe traga não informação, mas encontro. Estarei com você em cada página — porque cada página, de algum modo, é sobre isto: eu quero ser conhecido por você.
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